terça-feira, 6 de setembro de 2011

FNM D11000 - o lendário Fenemê

Amigos, encontrei um belíssimo exemplar do FNM D11000 nas ruas da querida Barbacena e acabei registrando aquele que foi um dia, considerado o "rei das estradas brasileiras".
FNM D11000 - 1961
FNM D11000 - 1961

Um pouco da história:

Após a frustrada tentativa em 1949 de fabricar os caminhões Istotta Fraschini no Brasil – a matriz italiana fechou as portas em 1950, quando apenas cerca de 200 veículos haviam saído da linha de montagem –, a Fábrica Nacional de Motores firmou acordo, no mesmo ano, com outra empresa italiana, a Alfa Romeo, para produzir aqui os seus renomados caminhões.

Os primeiros deles, baseados no Alfa Romeo 800 (com motor diesel de 115 CV) começaram a ser montados já em 1951, e receberam a denominação provisória 800 BR.  No ano seguinte, com o início das vendas e da utilização comercial desse modelo, constatou-se a necessidade de um propulsor mais possante, o que levou a fábrica a trocá-lo pelo motor do A.R. 900, de 130 CV;  comercializado a partir de 1953, esse caminhão recebeu a designação FNM D-9.500 , em função da cilindrada do seu motor: 9.495 cm3.  Esses FNMs, classificados na categoria dos caminhões pesados, eram considerados bastante possantes para a época, e aceitavam diversas configurações, como “toco” (2 eixos), “trucado”(3 eixos), basculante e cavalo mecânico;  e, como se isso não bastasse, eram robustos, resistentes, com mecânica confiável e dotados de uma até então inédita e espaçosa cabine-leito avançada.

Graças a todas essas qualidades, o modelo D-9.500 obteve sucesso imediato, e não tardou para que ele começasse a desbancar os caminhões pesados importados, na sua maioria ingleses e americanos: Aclo, Leyland, International, GMC, Mack, White, etc.. Assim “nasceram”, portanto, os primeiros fenemês, caminhões pioneiros da indústria automobilística nacional, que viriam a fazer história nas precárias estradas do país, enfrentando e vencendo condições terríveis em meio à buraqueira, à poeira e à lama, e tornando-se em pouco tempo uma espécie de “lenda viva” do transporte rodoviário nacional.

Mas, não obstante a sua enorme aceitação – a fábrica nunca conseguira atender à demanda –, o tempo passou e verificou-se a necessidade de introduzir aperfeiçoamentos técnicos nos bravos D-9.500.  O resultado disso foi que, em fins de 1957, a Fábrica Nacional de Motores anunciava a chegada da segunda geração de caminhões FNM/Alfa Romeo:  o modelo D-11.000, recheado de inovações técnicas, como o motor AR 1610 de 150 CV, caixa de direção mais moderna, caixa de câmbio separada do propulsor, embreagem mais suave e várias outras melhorias. Como esperado, foi saudado com entusiasmo pelos usuários, que faziam fila para adquiri-lo na fábrica e nas concessionárias.

A produção do FNM D-11000 iniciou-se com nacionalização de cerca de 90% das peças. Considerado o mais resistente caminhão brasileiro, rapidamente ganhou fama e foi largamente comercializado na versão civil, sendo um importante meio de ajuda à integração e desenvolvimento do país.

O FNM era equipado com um motor Diesel de 150 HP, Alfa Romeo, seis cilindros, de injeção a quatro tempos, relação de compressão de 17:1, 11.050 cilindradas e rotação máxima de 2000 por minuto, uma novidade para a época pois a maioria usava motor a gasolina. O bloco do motor era fundido em liga leve de alumínio, com camisas removíveis, facilitando em muito a manutenção e reparos até no caso de retífica do motor. Possuía quatro marchas normais e quatro multiplicadas á frente e marcha a ré normal e multiplicada. Duas árvores de transmissão, dianteira entre a embreagem e caixa de mudança, e a traseira entre a caixa de mudanças e o diferencial.

Versátil, eficiente e econômico, dotado de um chassi de extraordinária robustez, suportando pesadas sobrecargas em estradas de grande precariedade e principalmente de terra, possuía sete travessas de aço que reforçavam ainda mais a estrutura do chassi, com diversos modelos, caminhão comum, cavalo mecânico e apenas o chassi, para adaptação como basculante, e ainda na versão chassi longo, que recebia um terceiro eixo. Seu peso era da ordem de 5.900kg, podendo transportar uma carga útil de 8.100kg e rebocar mais 18.000kg. Sua suspensão era de feixe de molas semi-elípticas, sendo a traseira com dois estágios de flexibilidade, mediante feixe de molas principal e auxiliar.
O consumo de combustível para cada 100km rodados era de 28 litros como caminhão normal e 40 litros quando com reboque, e seu consumo de lubrificante era de 0,400kg para cada 100km.

Uma inovação importante era o fato de possuir leito suspenso no interior da cabine, dando um conforto maior ao motorista e ajudante, uma vez que existiam cabines com apenas dois assentos e cabines com duas camas, que podiam ser transformadas em um confortável banco para quatro pessoas, amplas e com excelente visão.

Outra inovação era no item segurança, pois possuía circuitos de freios dianteiros e traseiros totalmente independentes, freios pneumáticos Whestinghouse, de ação instantânea, que numa eventualidade de “estourar” um circuito, o motorista poderia prosseguir viagem até a próxima oficina.

Este caminhão chegou a ser operado pelo Exército Brasileiro não só dentro do território nacional, mas alguns foram enviados para a região de Gaza, no Oriente Médio para servir como transporte em auxílio às tropas brasileiras que estavam a serviço da ONU na região, tentando evitar conflitos entre Árabes e Judeus.

Sem dúvida foi um marco importante não só como o primeiro caminhão
totalmente “Made in Brasil”, produzido em série e empregado tanto no meio civil como no militar, operando sob severas e árduas condições, como também mostrou a importância deste tipo de veículo, que foi produzido no país por diversas outras empresas e marcas, consolidando uma importante indústria voltada para a área de caminhões.

A FNM foi adquirida em 1976 pela Fiat e encerrou suas atividades no Brasil em 1985, muito embora a produção de caminhões tenha chegado ao fim em 1983.

DADOS TÉCNICOS

Fabricante: Fábrica Nacional de Motores S/A

Modelo: FNM D-11.000
Comprimento máximo: 7,61m
Largura máxima: 2,40m
Altura máxima: 2,68m
Peso do veículo: 5.900kg
Peso do veículo com carga total: 15.000kg
Peso rebocável máximo: 18.000kg

Motor: Alfa Romeo AR 1610, Diesel, 6 cilindros, 150Hp, refrigerado a água
Alimentação: Injeção direta, bomba de injeção com êmbolos, de débito regulável, marca Bosch
Capacidade de combustível no tanque: 140 litros
Autonomia a plena carga: 500km
Autonomia com reboque a plena carga: 350km
Sistema elétrico: 24 volts para o motor e 12 volts para diversos aparelhos e acessórios

5 comentários:

Luiz Gustavo/BH disse...

Realmente o FNM marcou uma geração de motoristas. Meu tio teve um e foi nele que viajei por esse Brasil à fora. Excelente matéria.

Ronaldo-Juiz de Fora/MG disse...

boa materia. uma homenagem a altura do rei das estradas brasileiras. valeu!

Sander Lima - Petropólis/RJ disse...

Esse 'bruto" marcou época. Parabens pela materia.

Rodrigo Zucco disse...

É o FNM foi e ainda é o melhor caminhão ja fabricado, meu pai, João Zucco, mais conhecido como Gringo, ainda trabalha com o seu FNM 180 N3 com 9,50m de carroceria, trabalha sempre carregando 15,500 kg. O caminhao apesar de ja ter 35 longos anos de serviço, ainda aguenta firme! Todo original, pra mim é uma alegria acordar as 6h da manha com aquele ronco inconfundivel do FNM. E devo dizer, que as estradas brasileiras de hoje, nao estao muito diferente daquelas de 40 anos atras! As grandes rodovias continuam boas e as estradas do interior continuam ruins! Meu pai ja perdeu a conta de quantos caminhoes ele ja desatolou nesses 34 anos de serviço, sempre trabalhando com FNM.

André Candreva disse...

Valeu Rodrigo Zucco pelo depoimento... muito bacana...