terça-feira, 26 de outubro de 2010

GP Coreia do Sul: uma lição

Após vários meses de incertezas, o GP da Coreia do Sul conseguiu ser realizado em um circuito longe do ideal em Yeongam. A Federação Internacional de Automobilismo (FIA), sob pressão de Bernie Ecclestone, dono dos direitos comerciais da categoria, jogou todos os prazos legais para inspeção da pista, que sofreu com sucessivos atrasos das obras causados pelo mau tempo na região. Depois do caos que foi a corrida disputada neste domingo, sob chuva, a pergunta que ficou foi a seguinte: valeu a pena forçar a barra pela prova?


Antes de mais nada, a menor parcela de culpa é dos organizadores da prova. A chuva atrasou, mas eles conseguiram realizar obras em tempo recorde. Perto do que se falava, o autódromo estava até que bem arrumado. Até a camada final do asfalto, colocada há menos de uma semana, resistiu bem ao fim de semana, sem rachar com a brutal tração dos carros. Só que ela tinha vários outros problemas: baixa aderência, fortes ondulações e drenagem deficiente. Problemas que podem ser resolvidos com facilidade para a temporada 2011. Mas a precitpitação na realização da corrida expôs todos essas falhas de forma dramática.

E a chuva deste domingo potencializou tudo isso. Sem aderência e com muitas poças d’água, a pista ficou impraticável, mesmo sem uma chuva torrencial. Já vimos várias corridas serem disputadas em condições piores de visibilidade. A poeira residual das obras que tinha atrapalhado a vida dos pilotos nos treinos em pista seca ficou depositada no asfalto e virou lama, junto com a grama recém-colocada e que não resistiu ao mau tempo e às rodadas na corrida. As fotos dos carros de Mark Webber e de Nico Rosberg, que bateram no início da bandeira verde são vergonhosas: pareciam ter acabado de sair de uma etapa do Mundial de Rali (WRC).

Vergonhosa também foi a espera. Após um atraso de 10 minutos na largada – que teve o safety car à frente – a corrida foi interrompida com três voltas. A bandeira vermelha durou 48 minutos, até que a direção de prova, com medo do fim da luz natural, mandou os carros de volta à ação, de novo com o carro de segurança. A fila indiana durou mais 36 minutos, para desespero dos fãs e de alguns pilotos como Lewis Hamilton, que reclamava pelo rádio insistentemente para que a relargada fosse autorizada. Tudo isso somado levou a um tempo total de 2h48m20s810. Esse tipo de atitude só afasta o fã das corridas. Todos fizeram papel de palhaço em frente à TV.

É mais uma lição a ser aprendida por uma Fórmula 1 que vive uma fase de ganância desenfreada e de expansão para países com pouca tradição no automobilismo. Além disso, a insistência de Bernie Ecclestone com os projetos de circuitos do alemão Hermann Tilke chega a irritar, se não fosse estranha. No caso de Yeongam, até gostei do traçado, mas aquela sequência de curvas rápidas no fim com muros dos dois lados e a entrada do pit lane são, no mínimo, temerárias. O fato é que os fãs detestam os projetos do arquiteto alemão, especialistas em pistas “Mickey Mouse”, sem graça alguma. Só que o lucro do chefão da F-1 deve mesmo ser muito alto para que ele continue insistindo nesta fórmula enjoada.
Em suma: foi um GP realizado antes da hora ideal – um trecho emularia um circuito de rua, mas ainda sem cidade . E uma corrida que pode encaminhar o campeão de 2010 não poderia ter sido disputada desta forma, tão mambembe. É péssimo para a imagem da Fórmula 1. Espero, realmente, que algo de construtivo fique para os dirigentes após essa péssima experiência. Às vezes – deveria ser na maior parte delas, aliás – o lado esportivo deve ser priorizado. Não é questão de buscar só o lucro, mas oferecer um bom espetáculo. E apesar das 2h48m20s810 de transmissão na TV, o GP da Coreia do Sul ficou longe disso. Não valeu mesmo a pena.

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