quarta-feira, 17 de março de 2010

Sambando no asfalto

por Rodrigo Mattar

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Para uma corrida cujo circuito foi feito às pressas, a São Paulo Indy 300 disputada ontem em São Paulo, no circuito de rua montado no entorno do Centro de Convenções do Anhembi e usando o Sambódromo paulistano, até que foi bem interessante.

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E com um resultado que poucos especialistas ousariam cravar: vitória da Penske, o que não é nada incomum, com o australiano Will Power; 2º lugar da Andretti, nada incomum também, mas com Ryan Hunter-Reay, tido como o patinho feio do time estadunidense; e 3ª posição com o redivivo Vítor Meira (carro #14, na foto), que fez grande corrida largando de décimo-sexto a bordo do bólido preparado pelo mito AJ Foyt, quatro vezes campeão como piloto nas 500 Milhas de Indianápolis e outra como dono de equipe.

O problema da São Paulo Indy 300, como todos sabemos, foi a falta de planejamento. Com o curtíssimo tempo entre a confirmação da corrida no calendário e sua consequente realização, sobraram pepinos para a organização da corrida e para a própria Indy Racing League resolverem. E o volume de problemas extrapolou tanto que os treinos de classificação, normalmente realizados na véspera, foram transferidos para a manhã da corrida.

Apesar das críticas dirigidas ao traçado projetado por Tony Cotman, alvo preferencial de Tony Kanaan, diga-se que a ideia não era ruim, mas sim mal-executada. Interromper 1,5 km de trecho da Marginal para fazer uma reta pessimamente asfaltada onde os carros literalmente sambavam nas freadas é um descalabro para uma cidade que já sofre com grandes engarrafamentos, todos os dias.

Some-se a isso o uso de uma outra reta, de 500 metros, pavimentada com concreto – e que teve que sofrer um frezamento para receber ranhuras e permitir uma melhor aderência dos carros. Os tempos de fato baixaram e muito, quase 4 segundos de um dia pro outro. Para uma pista “verde”, foi uma melhora considerável, mas ainda houve uma convidada indesejável mas nem tampouco inesperada: a chuva.

E foi o pé d’água que caiu no circuito citadino que revelou outra deficiência da pista: a ausência de um bom sistema de drenagem, que provocou a aquaplanagem e batida do britânico Alex Lloyd e a formação de verdadeiros riachos, visíveis a olho nu com os carros em baixíssima velocidade.

A demora da direção de prova em desfraldar a bandeira vermelha foi de uma incoerência atroz e não foi surpresa pra ninguém que a corrida terminasse bem antes das 75 voltas previstas (foram completadas 61), dentro do tempo máximo de 2 horas, graças aos acidentes que aconteceram em grande número.

Não vou dedicar linhas para descer a lenha também no uso espúrio do dinheiro público para a realização desta corrida, coisa que aliás muitos dos meus colegas de profissão já fizeram. Mas vou “saudar” a cara-de-pau do presidente da CBA, Clayton Pinteiro, que teve a desfaçatez de dizer que a entidade “se esforçou” para que o evento fosse possível.

Ora, todos nós sabemos que a atual administração não consegue sequer lutar por um novo autódromo no Rio e nem pela manutenção da pista de Goiânia. E ainda pinta esse papo furado de “participação” na São Paulo Indy 300? Vergonha na cara tem limite…

Voltando à corrida, foi uma pena que Tony Kanaan, desde o início o brasileiro com mais chances, fosse vítima de uma barbeiragem involuntária de Alexandre Tagliani, abalroado primeiro por Dan Wheldon antes de se chocar com o piloto da Andretti Autosport. Os problemas do “bom baiano” abriram a brecha pela qual entrou Vítor Meira, que fez ótima corrida e também o mineiro Raphael Matos, outro com ótima performance no domingo, com direito a um promissor quarto lugar.

Hélio Castroneves arriscou uma estratégia diferente de seus companheiros de equipe e foi mal-sucedido. Menos mal que Will Power foi o vencedor, sendo que Ryan Briscoe ponteou também até escorregar na própria ansiedade e estampar seu carro contra uma pilha de pneus. O piloto da Penske chegou em 9º, três posições adiante de Bia Figueiredo, que fez uma bela e honesta estreia pela Dreyer & Reinbold, num equipamento inferior ao de seus colegas Justin Wilson e Mike Conway.

Mário Romancini, também estreante, ainda conseguiu andar bem enquanto deu, mas não terminou a corrida, assim como o xará Moraes, que logo após a largada deu um voo cinematográfico sobre o carro de Marco Andretti, provocando o abandono de ambos.

Além do 13º lugar de Bia Figueiredo, é de se realçar a performance da novata Simona de Silvestro. A ítalo-suíça foi a surpresa mais positiva do fim de semana, liderando num período curto de bandeira amarela e com uma performance muito consistente em todos os treinos. Pena que foi nocauteada por problemas e chegou em 16º lugar. Seu desempenho dá o que pensar: imaginem quando ela e Bia tiverem carros à altura do talento que demonstraram neste fim de semana?

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