segunda-feira, 8 de março de 2010

Efeito Mosley...

por Rafael Lopes

A F-1 e Max Mosley

A Fórmula 1 vive, de longe, um dos momentos mais bagunçados de sua história. Nem no fim da década de 1980, com pré-qualificação e equipes muito fracas, vivemos uma época de tantas incertezas antes do início de uma temporada. A ampliação do grid para 13 times e a concorrência feita pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) para as três (depois quatro, após a saída da Toyota) colocaram ainda mais dúvidas sobre a categoria, que apostou em grupos de credibilidade duvidosa. É o que chamo de “Efeito Mosley”.

Antes das críticas, vamos à ressalva. É claro que todo o trabalho desenvolvido pelo ex-presidente da FIA para aumentar a segurança na Fórmula 1 foi excepcional. Depois das mortes de Ayrton Senna e Roland Ratzenberger em 1994, os carros da categoria se tornaram quase indestrutíveis. O melhor exemplo para isso foi a violenta batida de Robert Kubica com a BMW Sauber no GP do Canadá de 2007. O polonês escapou sem ferimentos e teve apenas de passar uma noite no hospital em Montreal.

Mas até esta busca pela segurança teve um efeito colateral. Algumas medidas erradas, como a adoção dos sulcos nos pneus, tornaram as ultrapassagens quase que impossíveis na Fórmula 1. Apenas no ano passado, com um novo regulamento, isto começou a ser revertido, com novas regras para os apêndices aerodinâmicos e para as asas do carro. Mas a manutenção dos difusores duplos, lançados pela Brawn GP, Toyota e Williams, foi um grande erro da entidade. Eles só serão eliminados em 2011, após um acordo entre todos os times.

Outro tiro no pé de Mosley foi a adoção do Sistema de Recuperação de Energia Cinética (Kers) na temporada passada. A tecnologia mostrou-se eficiente, tanto que a Ferrari vai adotá-la em alguns de seus carros de rua. Mas o caro desenvolvimento afastou várias equipes do equipamento e foi o grande pivô da saída da BMW da Fórmula 1. A montadora alemã apostou em um projeto caríssimo, mas um carro ruim como o F1.09 colocou tudo a perder. A equipe só melhorou seu desempenho quando abandonou o Kers na metade do ano.

- Mais dinheiro e o ataque aos garagistas

A Jordan em seu ano de estréia na Fórmula 1, em 1991

Só que, para mim, o grande problema da gestão Mosley foi a elitização, em termos financeiros, da Fórmula 1. As montadoras, tão criticadas pelo ex-presidente em seus últimos dias na FIA, ganharam incentivos de sua gestão para entrar na categoria. A taxa de inscrição para uma nova equipe na categoria era de US$ 100 mil em 1991. Este valor subiu para absurdos US$ 48 milhões apenas oito anos depois, na temporada 1999. Ou seja: aniquilou a subida de equipes originárias das categorias de base. Movimentos como o da Jordan, em 1991, só para ficar em um exemplo mais recente, ficaram completamente inviáveis.

Os custos cada vez maiores e o limite de vagas para equipes na Fórmula 1 foram outros obstáculos construídos pela gestão Mosley. Uma a uma, as equipes lideradas por garagistas foram sendo eliminadas da categoria. Ou elas se encaminhavam para a extinção, como foi o caso da Ligier (depois Prost), ou acabaram se aliando a grandes montadoras, exemplo da McLaren (com a Mercedes). A única resistente foi a Williams, que teve acordos com a Renault e com a BMW, mas sempre se manteve no comando. No entanto, ela foi decaindo aos poucos. O time deixou de ser postulante a títulos para brigar por míseros pontos nos últimos anos.

Só que, por causa de questões políticas, Mosley resolveu inverter o jogo no ano passado. Ele reduziu a taxa de entrada para equipes novas para US$ 440 mil e ampliar o grid para 26 carros (boas medidas). Só que a escolha dos times não obedeceu a critérios esportivos e vimos estruturas como a da Prodrive e da Epsilon Euskadi fora da F-1. Em vez disso, USF1, Campos, Lotus e Manor (com Nick Wirth, parceiro de longa data de Mosley) foram agraciadas com vagas na temporada 2010. O resultado disso nós já vimos: USF1 e Campos com muitas dificuldades financeiras. A espanhola só foi salva a poucos dias do início da temporada.

Em suma: toda a bagunça que estamos vendo nesta pré-temporada da Fórmula 1 é responsabilidade de Max Mosley, ex-presidente da FIA. Mas agora não adianta reclamar. Temos de torcer para as novas equipes crescerem e se estabilizarem na categoria. Se elas debandarem em 2011, por problemas econômicos, o efeito será ainda pior do que as saídas das montadoras. O grid poderá ficar perigosamente pequeno. Seria a consequência extrema do “Efeito Mosley” na F-1.

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