quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Confissão de culpa...

por Rodrigo Mattar


Após a revelação de que Nelson Piquet delatou o escândalo do GP de Cingapura a Max Mosley, para vingar-se da demissão do filho Nelson Ângelo, foi a vez de vir à tona a carta que o próprio piloto assinou como uma espécie de “confissão de culpa” no triste episódio do ano passado - o mais nojento e escabroso caso de armação que a Fórmula 1 já conheceu.

Em depoimento a Alan Donnelly e dois integrantes da Quest, empresa independente de auditoria que a FIA convocou para dar um rumo ao “Cingapuragate”, Piquet confessou que a manipulação em favor de Fernando Alonso - que hoje disse não ter tido nenhum conhecimento do episódio nos bastidores - foi sugerida por Flavio Briatore e também por Pat Symmonds, engenheiro-chefe da Renault.

Transcrita em dezesseis parágrafos, a confissão não põe margem a dúvidas. Os dirigentes perguntaram ao piloto brasileiro se ele estaria disposto a sacrificar sua corrida para provocar a entrada do Safety Car, ajudando a tática de Fernando Alonso, que largara muito leve, uma posição à frente de Piquet, para reabastecer em bandeira verde e aproveitar a presença do carro de segurança para ganhar posições.

O piloto garante que o episódio não influenciou na decisão da renovação de seu contrato para a temporada 2009, da qual já não participa mais. Mas as seguidas reuniões entre Briatore e Piquet pai em Interlagos davam a entender que o tricampeão já podia ter conhecimento da história e usava isso como um trunfo na manga para pressionar o italiano e assim garantir a permanência de seu filho na Renault. O que de fato aconteceu.

Isto posto, Piquet cumpriu à risca o que pediu Pat Symmonds, que lhe mostrou com a ajuda de um mapa o ponto exato da pista onde o piloto bateria sem precisar do auxílio de um guindaste para tirar o carro destruído. O local perfeito para a execução da ardilosa trama era entre as curvas 17 e 18 do circuito de rua. Na volta de apresentação, o piloto brasileiro fez uma espécie de “ensaio”, rodando para ter certeza de que aquele era o ponto.

Catorze voltas mais tarde, aconteceu a batida. Piquet, com um tímido “sorry, guys”, desculpou-se. Nas entrevistas para a Rede Globo, falava e olhava para baixo. Dizem alguns leitores e os entendidos, que olhar para baixo significa que a pessoa está mentindo. Ao não olhar para os olhos do repórter, Piquet talvez assumisse sua culpa - uma culpa da qual só estamos tomando conhecimento quase um ano depois.

O 12º parágrafo da confissão não deixa dúvidas. “Eu causei intencionalmente a batida”, diz o piloto. “Perguntei à equipe por diversas vezes o número da volta em que estávamos, o que normalmente não faço. Ninguém se lesionou no acidente.”

No parágrafo seguinte, Piquet disse que Briatore despediu-se dele ao fim daquela noite de domingo com um discreto “obrigado”, sem mais nada dizer. E no 16º e último trecho do depoimento, o brasileiro afirma categoricamente que a batida foi proposital. “Pela telemetria, poderia se notar que continuei acelerando, enquanto que a reação normal seria usar o máximo possível de freio”.

A família Piquet quer livrar a cara de Nelson Ângelo no episódio. Agora, fica uma pergunta no ar: se todo mundo - o piloto, o pai tricampeão e o engenheiro Felipe Vargas sabiam da trama, por que não contaram tudo antes da renovação do contrato? E deixar tudo isso que se passou em 2009 para agora estourar um escândalo que pode aniquilar com a carreira do piloto brasileiro?

Uma certeza a gente tem: desse episódio todo, vai sair coisa muito ruim para Flavio Briatore. E também para Pat Symmonds. O dia 21 promete ser um divisor de águas na história da Fórmula 1. Tudo o que Max Mosley queria era encerrar seu mandato com uma virada para cima de um dos seus maiores inimigos políticos. E é isso que deverá acontecer.

Nenhum comentário: