sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Malandragem, dá um tempo…

Por Alexander Grünwald

Durante a semana, o assunto mais discutido entre os apaixonados por velocidade em todo o mundo foi a polêmica vivida recentemente pela Fórmula 1 em Spa-Francorchamps. Não houve, entre aqueles que assistiram à corrida belga, quem deixasse de emitir uma opinião sobre tudo o que aconteceu entre as curvas Bus Stop e La Source, e de lá para a cabine dos comissários desportivos. O corte da chicane, a posição mal devolvida, a manobra de ultrapassagem, a punição, tudo virou tema de conversa entre quem entende e quem não entende de corridas de automóveis, ganhando destaque em tudo quanto é lugar, dos programas especializados às conversas de botequim.

E mesmo entre gente graúda, que está há muitos anos neste negócio, houve divergência na interpretação do caso Hamilton. Entre os que foram contra a punição, os argumentos mais usados foram uma suposta intervenção política, a necessidade de regras claras para a devolução de posições e o bloqueio à ousadia do piloto que deseja simplesmente superar um adversário. Dos que sinalizaram a favor, falou-se muito na obtenção de vantagem, resultando numa ultrapassagem ilícita, e no excesso de malandragem por parte do competidor da McLaren ao se posicionar atrás do carro de Kimi Räikkönen já em alta velocidade.

É óbvio que, depois de tanta discussão, quem ainda não tinha opinião formada já tratou de definir seu lado. Mas, ainda assim, há algo em comum entre todos os que se manifestaram a respeito do ocorrido em Spa, seja qual for a impressão sobre o veredicto dos comissários. Todos concordam que houve um grau altíssimo de esperteza na manobra de Lewis Hamilton, que transformou uma devolução de posição em uma ultrapassagem arrojada, afundando as pretensões de Räikkönen nas voltas finais do GP.

É aí que, em vez de discutir o sexo dos anjos, quem admira competições automobilísticas fica se perguntando qual é, afinal, o limite de tamanha ousadia. Numa situação destas, é possível ser duro e ainda assim leal ao adversário? A 300 km/h, pensar rápido é uma vantagem ou isso faz com que competidor acabe agindo por impulso? Até onde vai a linha imaginária que separa o lícito do ilícito? Pois diferentes olhos puderam enxergar, numa só manobra, elementos como sagacidade, esperteza, malandragem, malícia e até maldade.

Já há algum tempo que qualquer competição esportiva de alto nível deixou de ser sinônimo de saúde, seja física ou mental. Os atletas são exigidos ao máximo em sua composição orgânica e também na sua capacidade de suportar pressões, criar estratégias e arranjar mecanismos de superar os adversários. E, nesta montanha-russa hormonal e emocional, os limites da ética acabam se descabelando completamente. Dia após dia, o conhecido fair play vai se transformando em uma batida força de expressão.

Vale repetir, não é de hoje que isso acontece. Em 1980, 1989, 1990, 1994 e 1997, por exemplo, os títulos mundiais de Fórmula 1 foram decididos após colisões entre os pilotos que disputavam a taça. O pior é que pouca coisa mudou de lá para cá. E mesmo que o vale-tudo não seja necessariamente uma tendência nas pistas de corrida, é bom a turma da prancheta continuar de olhos bem abertos a cada corrida disputada. Pois o que não falta nos Grandes Prêmios é um tipo clássico da cultura popular, o famoso “malandro-agulha”. Aquele que, quando dá furo, não perde a linha.

O jornalista Alexander Grünwald é produtor do programa Grid Motor, do SPORTV, e dono do Grün Blog. Ele escreve neste espaço todas as sextas-feiras.

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